Esporte na escola:
problema no presente, tragédia no futuro

por Pedro Lopes

Parte I
A dura realidade das escolas públicas

Sede dos dois maiores eventos esportivos do planeta entre 2014 e 2016, o Brasil gastou mais de R$ 7 bilhões nas arenas utilizadas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e cerca de R$ 8 bilhões nos estádios da Copa do Mundo. O governo teve que arcar com custos astronômicos, que praticamente nada acrescentaram à prática de esportes entre as crianças e adolescentes nas escolas públicas brasileiras. E isso é provado pelo Censo Escolar de 2015, divulgado pelo INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, órgão ligado ao Ministério da Educação. O estudo mostra a situação deplorável da educação esportiva no País: atualmente, seis em cada dez unidades de educação básica não dispõem de quadras esportivas.

São Paulo, estado que conta com a maior rede pública de ensino no Brasil, tem absurdos 37% de suas escolas sem quadras disponíveis para os estudantes. Embora seja bem menos precária que em regiões como o Maranhão e o Acre, onde mais de 90% das unidades de educação básica não abrigam quadras, a realidade das instalações esportivas no ensino gratuito paulista ainda é marcada por investimentos escassos.

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental José de Alcântara Machado Filho, no bairro do Real Parque, zona sul paulistana, onde condomínios de alto padrão estão a poucos metros de comunidades carentes e moradias populares, poucos minutos de chuva bastam para que os quase 500 alunos da unidade, a maioria das classes D e E, façam de tudo durante as aulas de educação física ou nos horários do recreio – menos práticas esportivas. Às 16h de uma segunda-feira chuvosa da primeira quinzena de março, o professor de Educação Física Yuri Spacov, de 31 anos, tinha muita dificuldade para conter a agitação de um grupo de mais de 20 estudantes. Ao lado de duas quadras poliesportivas com o solo encharcado, crianças de 7 a 10 anos se divertiam e gastavam energia atirando umas nas outras as maçãs que receberam momentos antes para a merenda. Esporte? Infelizmente, nada.

Choveu?
Baralho e jogos de tabuleiro viram solução

A guerra de maçãs não é a única das “modalidades” da EMEF José de Alcântara Machado Filho que, em condições ideais, não fariam parte da proposta das aulas de Educação Física. Repleta de furos em seu telhado, a quadra coberta que Spacov e os outros três professores da disciplina têm à disposição nunca é usada nos dias de chuva. Com poças d’água em todas as extremidades, praticar esportes por ali é quase uma garantia de que alguma criança vai se machucar.

A falta de estrutura obriga Spacov a improvisar e recorrer a métodos pouco ortodoxos para oferecer algo aos estudantes quando as quadras estão molhadas. O baralho e os jogos de tabuleiro (como War, Batalha Naval, Jogo da Vida e Cara a Cara) são formas que ele encontra para se aproximar dos valores proporcionados pelo esporte.

“Além das habilidades motoras, o esporte promove a socialização e a inclusão das regras. Faz com que eles aprendam a perder e a ganhar. Aqui, algumas barreiras influenciam a aprendizagem deles. Se choveu, não dá (para ter aula na quadra). E o jogo de tabuleiro tem algo parecido com o esporte. Tem a regra, aquele limite de espaço, a leitura e o convívio com os outros colegas. Dá para trabalhar a vitória e a derrota", explica, sem esquecer que “não é fácil improvisar sempre”.

A monocultura do futebol

Os jogos de tabuleiro dividem espaço nas prateleiras da pequena sala onde estão os materiais esportivos com equipamentos que nem sempre são suficientes para atender às necessidades que envolvem as aulas para o aprimoramento de fundamentos dos estudantes em determinadas modalidades. O número limitado de bolas de vôlei – são duas para a escola inteira – impede os professores de colocarem treinos específicos para que as habilidades e os movimentos sejam desenvolvidos. Sem que os garotos e garotas aprendam a sacar e bloquear, qualquer partida de vôlei torna-se um show de horrores, afastando os mais novos de um dos esportes mais vitoriosos da história recente do Brasil nos Jogos Olímpicos.

Fazer com que as crianças iniciem sua história no caminho trilhado por Leandrinho, Tiago Splitter, Nenê, Anderson Varejão e Cristiano Felício, atletas brasileiros que atuam na NBA, não é uma tarefa simples na escola do Real Parque. Uma das quadras, a descoberta, não tem tabela de basquete. E as bolas disponíveis são muito pesadas para crianças que ainda estão tentando dominar os fundamentos – o que faz com que, vez ou outra, uma partida de basquete termine com um aluno com o dedo torcido.

Não é só a limitação de espaço e nos materiais esportivos que atrapalha a vida de Spacov na hora de apresentar esportes olímpicos aos alunos. O desinteresse da garotada por outras modalidades contrasta com o apreço pelo futebol. Apesar dos esforços de alguns professores de educação física, a monocultura do futebol, tema de uma série de debates durante os Jogos Olímpicos do Rio, começa a ser construída na escola.

Entre os brasileiros que praticam esportes, 76% têm o primeiro contato com o exercício físico até os 14 anos, segundo dados do Ministério do Esporte. O futebol é a porta de entrada no mundo dos esportes para 59% das pessoas, muito à frente do vôlei, com apenas 9%.

“Geralmente, o aluno só quer futebol. Quando você traz algo novo e a criança gosta, não tem onde praticar. Não tem uma bola, por exemplo. Existe uma barreira social muito grande”, explica o professor. “Comecei a trabalhar um pouco de atletismo no ano passado. Trouxe técnicas de corrida, salto simples, salto triplo, salto em distância. 80% fizeram, mas alguns falaram: 'Não vou fazer esse negócio, não'. Alguns só fazem o que querem – o que, no caso dos meninos, é jogar futebol.”

Crianças cada vez menos ativas

Aos 12 anos, Juliana Jesiane Gomes Lima, moradora do Real Parque e aluna de Spacov, só pratica exercícios físicos quando está na escola. Além de ficar parada nos dias chuvosos, ela, diferentemente da maioria dos garotos com quem divide a sala de aula, não demonstra entusiasmo para jogar futebol. Ela diz que “por preguiça” não vai atrás de outra modalidade quando não está nas dependências da escola.

A preguiça, a alimentação inadequada, o apego das crianças às ferramentas digitais e a falta de espaços públicos para praticar esportes colaboram para que a obesidade infantil venha atingindo índices de epidemia no Brasil. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2014 estimavam que uma em cada três crianças brasileiras está acima do peso recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os números são ainda mais preocupantes nas regiões Sudeste e Sul, onde o excesso de peso atinge 38,8 e 35,9% das crianças de 5 a 9 anos, respectivamente.

Parte II
Onde o esporte é coisa séria

A menos de três quilômetros da Escola Municipal de Ensino Fundamental José de Alcântara Machado Filho, a realidade é bem diferente: um campo de futebol com medidas oficiais, doze quadras, uma pista de atletismo, duas piscinas, um salão de ginástica olímpica, uma sala de judô e uma academia recheada de equipamentos modernos estão espalhados por uma área de 100 mil metros quadrados em um dos redutos da classe alta paulistana, o Morumbi, também na zona sul paulistana. O espaço poderia facilmente pertencer ao vizinho São Paulo Futebol Clube, mas, na verdade, trata-se da infraestrutura de um dos colégios mais tradicionais da cidade, o Visconde de Porto Seguro.

Fundado em 1878 para acolher filhos de imigrantes alemães, o Porto Seguro hoje conta com outras duas unidades, no Panamby e em Valinhos, a 88 quilômetros da capital, e estampa em seus corredores as conquistas de seus alunos em vestibulares concorridos e universidades estrangeiras – mas também encara com seriedade o trabalho feito em suas instalações esportivas. O esporte é uma das ferramentas para que os alunos tenham uma formação intelectual, emocional, social e, por que não, física. Fazer com que os alunos carreguem para o resto da vida os valores e os benefícios do esporte representa um compromisso para os 14 professores de educação física que trabalham na unidade do Morumbi.

"Dentro de uma aula de educação física, conseguimos trabalhar muito mais do que competências e habilidades. O aluno consegue olhar para a sua face de solidariedade, de coleguismo e cooperação. Passa a entender o que é seu e o que é do outro. O papel da educação física extrapola as linhas da quadra ou do campo. É uma filosofia que vai além daqueles 45 minutos de aula", explica Alexandre Hammer Calixto, coordenador institucional de esportes do Porto Seguro.

O colégio não se enquadra na estatística de que uma em cada três crianças brasileiras está acima do peso recomendado. Em quase três horas de visita às dependências da escola, a reportagem do Portal da Educação Física viu centenas de alunos se exercitando nas aulas de educação física ou em seus horários de intervalo. Pouquíssimos apresentavam sobrepeso. No recreio da garotada de 7 a 10 anos, vê-los com aparelhos eletrônicos nas mãos é raro. Os breves instantes que têm entre uma aula e outra são usados para brincar, correr e jogar.

Trata-se de um reflexo de uma mentalidade transmitida, literalmente, a partir dos primeiros passos. No Portinho, núcleo que recebe alunos de até cinco anos, os pequenos passam por uma espécie de introdução à educação física. Com a supervisão de professores, são instigados a engatinhar, rastejar, balançar, andar e nadar – uma evolução feita de acordo com a idade e o perfil do aluno.

Uma válvula de escape que vai muito além do futebol

Embora o campo de futebol chame atenção de quem passa pelo colégio e já tenha recebido até uma seletiva do Bayern de Munique em 2012, não é só com a bola nos pés que vivem os alunos do Porto Seguro. O futebol e o futsal são praticados com frequência parecida a esportes como basquete, vôlei, handebol, natação e atletismo, já que o corpo docente organiza minitemporadas de cada modalidade ao longo do ano. Lá, um dia de chuva é capaz de alterar os planos, mas jamais faz com que o esporte seja deixado de lado. Fugir da monocultura esportiva que reina no Brasil aumenta as chances de que as crianças e os adolescentes desenvolvam interesse em esportes com os quais tinham pouco contato até então.

"A criança precisa ser estimulada. Se os estímulos são bem feitos, certamente não é só futebol que ela vai querer praticar. No decorrer de sua história, ela vai criando uma bagagem esportiva. Obviamente, o futebol é cultural, principalmente aqui no Brasil, mas temos inúmeras modalidades e possibilidades de trabalhar o esporte. A criança que não está vinculada ao futebol não pode se sentir excluída da prática esportiva", afirma Calixto.

Foi dentro do Porto Seguro que Paola de Lima Acetoze, de 14 anos, pegou gosto pelo handebol, modalidade que ela treina durante 90 minutos todas as quintas-feiras, de forma independente das duas aulas semanais de educação física do currículo regular. Treinamentos extracurriculares de futsal, futebol, basquete, handebol ou vôlei, entre outros esportes, estão inclusos nas mensalidades, que giram entre R$ 3.100 e R$ 3.500.

"A educação física é um momento de distração, para ficar com os amigos e aprender novas modalidades. Eu amo esporte e descobri várias modalidades em que me dou bem através da educação física", diz a estudante do 9º ano.

Articular jogadas e arremessar bolas não são seus únicos aprendizados nas quadras. Paola é uma garota esguia que domina bem as palavras, não usa gírias e pondera com lucidez sobre o que vai dizer, passando a impressão de que não tem apenas 14 anos. Apesar da pouca idade, ela já concluiu que o esporte imita a vida.

“O esporte faz com que eu consiga ter uma relação muito melhor com as pessoas com que estou convivendo. Consegui fazer muitas amigas por meio do esporte, ter uma relação bem mais próxima a elas. Todas as quintas-feiras estamos juntas e vivemos situações não só de sala de aula, de estudo. São situações que podemos ter no dia-a-dia daqui para frente. Eu vou saber me expressar, saber como eu tenho que reagir diante de alguém que me maltratou em um jogo. Acho que isso é muito importante para o futuro. Na vida, tudo pode acontecer. Pessoas podem te maltratar ou te xingar. Esses treinamentos de handebol me dão uma ideia de como vai ser no futuro”, reflete a jovem.

Quando o assunto são os estudos, Paola se define como “aplicada” e “estressada”. Nunca ficou de recuperação, tem poucas notas abaixo da média e se cobra muito para que o cenário não mude. É o estresse provocado pela rotina de um dos colégios mais puxados de São Paulo que a faz enxergar o esporte como uma válvula de escape, um “momento para acalmar”.

Associada à liberação de hormônios relacionados ao bem-estar, como a serotonina e a endorfina, a prática de esportes ajuda na atividade cerebral dos adolescentes. Um estudo feito na Universidade de Gotemburgo, na Suécia, com 1,2 milhão de pessoas, confirmou que jovens que praticam esportes apresentam melhor desempenho de raciocínio, aprendizado e memorização em relação aos sedentários.

Celeiro de atletas olímpicos?
Nem tanto

Apontado como uma escola pouco adequada para famílias muito liberais – a rigidez pode ser maior que em outros colégios do mesmo padrão –, o Porto Seguro se orgulha de servir como trampolim para universidades prestigiadas no Brasil e no exterior. Basta uma caminhada pelo colégio para se deparar com dezenas de referências a aprovações em faculdades como USP, Unicamp, Unifesp, Unesp, FGV ou ESPM – só para citar as que estão em território paulista. Apesar de seu viés esportivo, como em qualquer outro colégio de alto nível, a pressão que envolve o temido vestibular é grande.

Mas nem só futuros advogados, engenheiros, médicos e administradores são formados no colégio paulistano. O esporte profissional é um caminho trilhado por uma pequena parcela que sai dali. 18 ex-alunos já disputaram Jogos Olímpicos. Nove deles estiveram na Olimpíada do Rio de Janeiro, no ano passado: os velejadores Robert Scheidt, dono de cinco medalhas olímpicas desde 1996, e Kahena Kunze, que foi ao lugar mais alto do pódio ao lado de Martine Grael; os irmãos Luiza Tavares de Almeida, Manuel Tavares de Almeida e Pedro Tavares de Alemida, da equipe de equitação; as gêmeas Tess e Amanda Oliveira, além de Izabella Maizza Chiappini, do polo aquático feminino; e Gustavo Guimarães, do polo aquático masculino.

Seria exagero apontar o Porto Seguro como um celeiro de atletas olímpicos, uma vez que as modalidades de Scheidt, Kunze e dos irmãos Tavares de Almeida, por exemplo, sequer são trabalhadas na escola. Dos 465 atletas que representaram o Brasil nos Jogos do Rio, 159 saíram do estado de São Paulo, o mais rico do País – boa parte deles de clubes e outras instituições privadas, o que comprova que a formação esportiva e as disputas de alto nível dificilmente são intensificadas nas escolas nacionais, por melhores e mais equipadas que sejam. A renda elevada das famílias dos estudantes do colégio de raízes alemãs indica que o apoio financeiro para viagens e treinamentos, um entrave na vida de muitos atletas olímpicos, nem sempre significa um problema.

Com nove ex-alunos competindo no maior evento esportivo do planeta, o Porto Seguro contou com mais "representantes" nos Jogos do Rio do que 14 estados brasileiros: Paraíba (6 atletas), Alagoas (5), Goiás (5), Maranhão (4), Ceará (3), Mato Grosso do Sul (3), Piauí (3), Amazonas (2), Mato Grosso (2), Pará (2), Rio Grande do Norte (2), Roraima (2), Acre (1) e Amapá (1).

"O Brasil não tem a formação esportiva dentro da escola, como acontece em outros países. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, a formação de base acontece dentro da escola", opina o diretor de relações internacionais da Confederação Brasileira de Desporto Estudantil (CBDE), Luiz Delphino, em entrevista à Agência Brasil. "Não é função da educação física fazer uma formação esportiva no país. A formação esportiva, historicamente no Brasil, sempre foi dentro de clubes. A escola é um modelo muito novo de formação esportiva", afirma o executivo.

Calixto reconhece que o Porto Seguro consegue trabalhar talentos do esporte somente até um determinado ponto, até que eles sejam encaminhados a uma instituição especializada em preparação física e nos treinamentos voltados para cada área. A prioridade é fazer com que os alunos saibam o valor da atividade física para suas vidas, garante ele.

"Nós não podemos descartar os futuros atletas olímpicos, mas a grande massa não disputará uma Olimpíada. A escola tem responsabilidade de descobrir talentos? Tem, isso é fato. Não podemos nos cegar. Podemos fazer essa ponte, talvez indicar para um grande clube. Eu só consigo dormir tranquilo quando olho para a grande massa de alunos e vejo que ela é compreendida, não somente os futuros atletas olímpicos. Temos atletas olímpicos, mas o esporte é muito mais do que isso", diz Calixto.

Protagonistas na conscientização de que o esporte é vital para o crescimento saudável da população, as escolas, na maioria das vezes, só conseguem desempenhar seu papel quando há investimento. O que, no caso do Brasil, só acontece em ambientes privados. Como mudar esse cenário?

Direção de conteúdo
Renato Pezzotti – Gerente de Conteúdo
Rafael Alberico – Editor/Curador do Portal da Educação Física

Repórter
Pedro Lopes

Fotos
Ricardo Soares

Direção de Arte
Huan Gomes
Thiago Figueiredo

Produção
Carol Medeiros

Vídeo
Fernando Celani